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Calçado tem potencial para exportar mais 320 milhões

Criada em: 10 dezembro de, 2015

Em provas cegas, o calçado português é preferido ao italiano. Quando a origem é mostrada, a desvalorização é de 17%. Mesmo assim bem inferior aos 30% de há uma década


A indústria portuguesa de calçado, que espera encerrar o ano a ultrapassar a fasquia dos dois mil milhões de euros de exportações, tem potencial para aumentar em mais de 320 milhões de euros as vendas internacionais. Em causa está o défice de imagem do calçado português face ao italiano, já que o “made in Portugal” ainda desvaloriza o produto em 17%. Isto, apesar de, em prova cega, o português ser preferido ao italiano.

Estes são valores de um estudo da Universidade Católica, realizado no decorrer da última edição da Micam, a maior feira de calçado do mundo, em Milão. “Em média, o calçado português portou-se melhor do que o italiano, ficando à frente em várias categorias. E só quando era dita a origem é que o italiano era preferido”, explica Alberto Castro da Faculdade de Economia e Gestão da Católica , para quem isto mostra que “já não é um problema de qualidade, mas de imagem” dos sapatos portugueses no mundo. ”

Carlos Santos, da empresa Zarco e detentor da marca de calçado de luxo para homem com o seu próprio nome, é perentório: “Já podemos dizer que sentimos que o made in Portugal é procurado. É um orgulho. Há países que nos contactam e frisam que o facto da origem dos produtos ser portuguesa lhes oferece credibilidade ao nível da qualidade”.

Há cerca de uma década, igual avaliação no mercado indicava haver “uma diferença significativa, na ordem dos 30%, entre a qualidade intrínseca do calçado português e a qualidade percebida pelo consumidor”. Esta constituía, então, a “mais séria fragilidade” das empresas do setor e levou a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS)  a reforçar, a partir de 2009, a presença em feiras no exterior e a lançar uma série de iniciativas de promoção ao abrigo da campanha The Sexiest Industry in Europe.

Um investimento que totalizou cerca de 55 milhões de euros ao longo do anterior quadro comunitário de apoio, mas que permitiu, ao mesmo tempo, destaca Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, aumentar em cerca de 700 milhões de euros as exportações de calçado, para um total de aproximadamente 1900 milhões de euros.

“Metade do caminho está percorrido, o que significa que o investimento que o setor fez e os apoios que recebeu, foram bem aplicados”, sublinha Alberto Castro. Para este responsável, o sucesso alcançado nas provas cegas face aos italianos indica “que há um esforço adicional a fazer para nos posicionarmos mais acima ainda e para combater algum estigma que persiste” associado, ainda, ao produto made in Portugal.

Miguel Vieira, conceituado estilista, sublinha a atualidade, modernidade e linguagem de moda muito internacional da campanha de comunicação e imagem de Portugal promovida pela APICCAPS. “Temos dado passos muito grandes em termos de imagem, fazendo com que, no plano internacional, haja uma grande valorização do fabricado em Portugal“, frisa.

Apesar de tudo, Alberto Castro reconhece que os resultados são “encorajadores” e justificam “investimentos adicionais”.  Até 2020, o setor tem previsto investir mais de 70 milhões de euros no reforço do seu processo de internacionalização, dos quais 14 milhões já em 2016, com a presença de 200 empresas em mais de 60 feiras e certames pelo mundo.

Para a próxima década, a APICCAPS assume que o objetivo é que Portugal seja “a referência internacional da indústria de calçado, pela sofisticação e pela criatividade”, reforçando as exportações “alicerçadas numa base produtiva nacional, sustentável e altamente competitiva”.  Paulo Gonçalves assume que o trabalho que tem sido desenvolvido pela associação “tem dado resultados”, mas que precisa de ser “aprofundado no futuro”.

Hoje, o preço médio do calçado português é o segundo mais elevado do mundo, só ultrapassado pelo italiano. Em causa estão os 31,88 dólares de 2014 (cerca de 24 euros ao câmbio médio do ano) versus os 50,92 dólares dos sapatos italianos (38,33 euros). A aproximação é uma das prioridades da indústria.

“À medida que formos aprofundando a presença do calçado português fora da Europa, é natural que o nosso preço médio vá aumentando. É em mercados como o Japão e a China que vendemos o calçado mais caro”, diz o diretor de comunicação da APICCAPS. Paulo Gonçalves reconhece, no entanto, que a entrada de novos produtos na gama de exportações portuguesas pode, por outro lado, ter um efeito contrário. O calçado de plástico de luxo tem vindo a ganhar peso nos últimos anos e o seu preço médio é bastante inferior ao calçado de couro.

Para Luís Onofre, nome incontornável na indústria, a análise é simples: “Houve, nos últimos anos, uma melhoria substancial na imagem do calçado no mundo. Algo que se deve, também, ao esforço da APICCAPS. E hoje podemos dizer, sem falsas modéstias, que temos um dos melhores calçados do mundo”.

Fonte: http://www.dinheirovivo.pt/